Coordenador da Farmácia do Hospital de Campanha do Pacaembu fala sobre seu trabalho

0
0

Unidade aberta em abril para atender pacientes com Covid-19 encerrou as atividades em 29 de junho

A pandemia causada pela expansão da Covid-19 alterou a realidade mundial e no Brasil. A partir de março, o Governo Federal, em conjunto com estados e municípios, promoveu uma mobilização nacional para não sobrecarregar o Sistema Único de Saúde (SUS) à população. Em São Paulo, estado com o maior número de habitantes do país e 12º em área territorial, um hospital de campanha foi erguido no Estádio do Pacaembu, área central da capital paulista, para suprir o aumento da taxa de ocupação de leitos em hospitais públicos e privados em decorrência da infecção humana pelo Sars-CoV-2. Inaugurada no dia 06 de abril deste ano, a unidade foi administrada e gerida pelo município e pelo Hospital Albert Einstein e teve as atividades encerradas no dia 29 de junho. Segundo o prefeito, Bruno Covas, porque a taxa de ocupação nos últimos dez dias nos hospitais de campanha da capital esteve abaixo de 50%.

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) parabeniza e reconhece o mérito de todos os farmacêuticos, técnicos em farmácia, auxiliares de almoxarifado e outros profissionais da saúde pela responsabilidade e atuação, combatendo bravamente o vírus no hospital de campanha, que oferecia 184 leitos de enfermaria e 16 leitos de estabilização (leitos de UTI com respiradores). Farmacêutico há 29 anos, Fábio Teixeira Ferracini, esteve diretamente envolvido desde o início do projeto, coordenando a equipe da Farmácia. “A equipe foi contratada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, com vínculo temporário até o encerramento do Hospital Municipal de Campanha Pacaembu. A equipe era composta por 49 funcionários, sob a minha coordenação, e os profissionais eram distribuídos em 30 técnicos de farmácia, seis auxiliares de almoxarifado, um líder de farmácia e 12 farmacêuticos clínicos”, recorda o coordenador da farmácia clínica e da pós-graduação em Farmácia Clínica do Hospital Israelita Albert Einstein, onde trabalha há 20 anos.

Mestre em Ciências da Saúde, Fábio Ferracini relata que se sente muito feliz porque em momento algum faltou materiais ou medicamentos no hospital para o tratamento dos pacientes acometidos pela doença. “No início, nossa padronização tinha 297 itens (96 medicamentos e 201 materiais). Já na 2º padronização, passamos a ter 386 itens (110 medicamentos e 276 materiais) e, por fim, 522 itens (221 medicamentos e 301 materiais). Tive que aumentar o número de medicamentos e materiais devido ao crescimento da complexidade do estado clínico dos pacientes. O hospital teve que ser montado e estruturado com equipamentos, medicamentos e materiais muito rapidamente, aproximadamente em 15 dias, isso nos levou a uma carga de trabalho diária de aproximadamente 18 horas. Ficamos responsáveis por suprir diversos itens”, afirma.

O farmacêutico tem um papel muito importante nas intervenções da prescrição médica e nas orientações para o paciente sobre como ele deve utilizar os medicamentos. Além disso, também é eficiente e necessário em cenários administrativos e gerenciais. “Inicialmente era para ser um hospital para o tratamento de pacientes com Covid-19 de baixa complexidade. Mas, com o passar dos dias e, por São Paulo ter atingido o pico da pandemia, o Hospital de Campanha do Pacaembu passou a atender casos de média complexidade também. Foram 1.515 pacientes admitidos com 5,2 dias de tempo médio de permanência. A farmácia dispensou 1.908.342 itens”, explica o especialista em Administração Hospitalar e Logística Empresarial.

A equipe formada por farmacêuticos para cuidar dos pacientes acometidos pelo vírus foi coordenada por Fabio Ferracini que, a todo o momento, manteve o olhar atento e experiente para conduzir a situação em um contexto tão delicado. “Como a maioria era recém-formada, com pouca experiência, os farmacêuticos tiveram uma ação muito forte de educação e treinamento dos técnicos de farmácia e nas intervenções da farmácia clínica. Destes 12 farmacêuticos, dois ficaram com dedicação exclusiva para o controle de estoque (o controle era feito manualmente em uma planilha de Excel, seguindo todas as normas estabelecidas pelo Compliance) e os outros 10 farmacêuticos tinham dedicação exclusiva para a farmácia clínica”, ressalta.

Contexto Clínico

É importante lembrar que em situações como essa tratada acima o farmacêutico tem autonomia para intervir em alguns aspectos como, por exemplo, no da prescrição médica como forma de garantir a segurança do paciente. “As nossas principais intervenções foram: dose, tempo de tratamento, via, medicamentos não padronizados, escalonamento de carbapenêmicos, indicação, aprazamento, conciliação medicamentosa, frequência, diluição, termo de responsabilidade de medicamento próprio, interações medicamentosas”, pontua o farmacêutico.

Além disso, o farmacêutico também poderá averiguar todos os exames que tenham sido realizados no paciente. “No hospital de campanha os principais exames checados foram: RNI, D-dimero, Plaquetas, Fibrinogênio, TTPA, Culturas de antimicrobianos”.

Ação Humanitária

Fabio Ferracini participou, em 2010, da ajuda humanitária no Haiti devido ao episódio do terremoto responsável pela devastação da cidade de Porto Príncipe. Ele ficou 45 dias no hospital de campanha montado pela Harvad Humanitarian Initiative em uma cidade chamada Found Parisien, localizada aproximadamente a 40 Km de Porto Príncipe, capital do Haiti. Todos envolvidos na missão contribuíram de formas distintas, já que o cenário era de catástrofe.

As atividades envolviam desde o recolhimento de lixos até ajudar outros profissionais. Mas a principal atuação do farmacêutico foi organizar o estoque de medicamentos. Por conta da grande doação de medicamentos, os fármacos acabaram ficando misturados em grandes caixas, o que parece praticamente impossível de localizar algum especificamente de forma rápida. Fábio cuidou em separar e organizar os medicamentos por classe farmacológica, pois assim era possível identificar o substituto de alguma droga visualmente. “Por exemplo, se o médico prescrevesse cefalosporina de 1º geração e no estoque só tivesse cefalosporina de 3º geração, esta era dispensada. O mesmo valia para os analgésicos, que eram muito prescritos porque a maioria dos casos era de amputação. Então se fosse prescrito codeína e no estoque tivéssemos apenas morfina, esta era dispensada”, comenta.

Na época, a vida proporcionou ao farmacêutico uma experiência muito além das condutas e práticas profissionais através da figura e proporção pequena de um menino que, diante de toda dificuldade, trouxe o ensinamento sobre uma das coisas mais essenciais no mundo, ajudar as pessoas. “Uma das minhas maiores lições de vida aconteceu no Haiti, por meio de uma criança de aproximadamente 5 ou 6 anos de idade. No final de uma tarde, organizei um jogo de futebol com as crianças e toda vez que o nosso time ia fazer um gol, nós deixávamos esse menino chutar a bola. Um dia, os colombianos estavam indo embora da missão e resolveram distribuir bolacha doce com recheio para as crianças. Cada uma delas recebeu duas bolachas e, neste momento, o menino que marcava os gols no nosso time correu em minha direção para me dar uma das bolachas – não sabia quando tinha sido a sua última refeição e nem imaginava qual seria a próxima. Eu gesticulava para ele comer, mas enquanto eu não dei uma pequena mordida, ele não comeu. Ele queria dar exatamente a metade do que tinha para comer”, conta Fabio Ferracini.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui