Doutora em imunologia das doenças infecciosas analisa o cenário das vacinas contra a covid-19

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A farmacêutica Renata Andrade explica o processo de produção de uma vacina

Quando se fala em vacina contra a covid-19, vemos uma situação ímpar na história da imunização mundial. Atualmente, existem mais de 160 vacinas em pesquisa, em diferentes estágios de desenvolvimento e com tecnologias distintas. A pesquisa e desenvolvimento de uma vacina geralmente leva muito anos. Porém, estima-se que para a vacina contra a Covid-19, dure entre 12 e 18 meses. A farmacêutica Renata Aline de Andrade, mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Ouro Preto, doutora em imunologia das doenças infecciosas pela Fundação Oswaldo Cruz e pós doutora em Atenção Farmacêutica pela Universidade de Granada, na Espanha, explica que esse processo é dividido em três etapas.

“Resumidamente, a primeira etapa consiste em uma pesquisa básica para formulação da proposta da vacina, a segunda constitui-se de testes pré-clínicos (in vitro ou in vivo) e na terceira etapa, subdividida em quatro fases, são realizados os ensaios clínicos em seres humanos. Na terceira etapa é avaliada a segurança da vacina (fase 1), se ela é capaz de induzir a resposta imune desejada (fase 2), se a resposta imune é protetora (fase 3) e qual o comportamento da vacina após ser disponibilizada para uso em um número grande de pessoas (fase 4). Essas etapas duram em média dez anos. Podemos citar como exceção a vacina da caxumba e do ebola, que tiveram seus processos de desenvolvimento com duração de 4 e 5 anos, respectivamente”.

Mesmo com o elevado número de vacinas sendo pesquisado, a especialista lembra que a estimativa é que a chance de sucesso de um novo imunizante seja de 5 a 6%. Dentre as 160 vacinas em estudo, 17 estão em fase clínica. Dessas, duas estão sendo testadas aqui no Brasil: uma desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca (Chadox1) e outra, desenvolvida na China em parceria com a Sinovac (Coronavac). “A primeira é uma vacina constituída de adenovírus de macacos (vírus que causa doença respiratória em macacos) em que o material genético foi substituído por material genético do Sars-CoV-2 e a segunda é constituída pelo vírus inativado Sars-CoV-2 associada a um adjuvante”.

A Dra. Renata Andrade, que também é docente na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Diamantina, Minas Gerais, ressalta que o objetivo é que ambas as vacinas estimulem o sistema imune a desenvolver resposta protetora, específica contra uma proteína chamada spike, que é a proteína de superfície do vírus, alvo de todas as vacinas em desenvolvimento. A especialista responde também a outras questões sobre a vacina para a prevenção da covid-19.

A vacina Russa, denominada Sputnik V, composta por dois tipos de adenovírus, tem sido o principal foco da mídia nesse assunto. Embora ainda muito questionada pela comunidade científica pela falta de publicação dos resultados dos testes clínicos, foi anunciada uma parceria entre o Governo Russo e o Governo do Paraná para sua produção. Cabe aqui ressaltar, entretanto, que não houve registro da mesma na Anvisa, critério essencial para sua disponibilização para a sociedade.

Por que o Brasil foi escolhido para testar essas vacinas?

O principal motivo é que, no Brasil, a pandemia está em franca expansão. Assim, temos um número grande de pessoas expostas ao vírus. A especialista acrescenta que, além disso, o custo de realização da fase três no Brasil é menor comparado a realização em países desenvolvidos. Assim, foram realizadas parcerias com a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan para produção e realização da etapa 3 das vacinas da Astrazênica (Chadox1) e da Sinovac (Coronavac). Vale comentar que o fato de os testes serem realizados no nosso país nos coloca em foco em relação a produção e distribuição prioritária dessas vacinas.

Quando essas vacinas estarão disponíveis para toda a população?

É preciso esclarecer que uma vez que alguma dessas vacinas demonstrar proteção para infecção contra o coronavírus, uma outra questão diz respeito a estrutura para o processo de produção em grande escala, de um grande número de doses, ainda mais tratando-se de pandemia.

Quantas doses teriam que ser produzidas para proteger a população mundial?

Paralelamente ao desenvolvimento dessas vacinas, já estão sendo construídos laboratórios para produção, mesmo sem a certeza do sucesso delas, mas ainda não sabemos qual seria a capacidade mundial de produção das mesmas. Por isso, não é possível determinar uma data.

Cabe aqui também enfatizarmos que muitas perguntas ainda precisam ser respondidas e elas estão intimamente relacionadas à utilização dessas vacinas no âmbito da saúde coletiva: qual o correlato de proteção (função imunológica responsável pela proteção)? Quais grupos seriam vacinados prioritariamente? Qual seria a idade ideal para vacinar? Qual a duração da proteção conferida por essas vacinas? Qual o número de indivíduos imunizados para interromper a transmissão viral? As mutações do vírus comprometeriam a resposta vacinal?

Qual a importância de se ter uma vacina?

Paralelamente a esse cenário de dúvidas, é interessante refletirmos, nesse momento, sobre a corrida incansável das Universidades, indústrias e Institutos do mundo todo por uma vacina, para assim valorizarmos as vacinas que já temos contra várias doenças graves, a maioria delas disponibilizadas gratuitamente pelo Programa Nacional de Imunizações.  Muito nos preocupa a queda das coberturas vacinais contra doenças como a do sarampo, HPV e poliomielite. Nós farmacêuticos, profissionais da saúde com mais fácil acesso, precisamos intensificar nosso serviço de educação em saúde para conscientização da população em relação a Covid-19, mas também ao programa de imunização, uma vez que atualizar o cartão vacinal constitui-se uma atividade essencial, mesmo em tempos de pandemia.

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