Estudo coordenado por farmacêutico norteou enfrentamento à Covid-19 no Maranhão

Pesquisa realizada entre 27 de julho e 8 de agosto de 2020 a partir de da testagem de amostras coletadas de 3.156 pessoas indicou uma taxa de infecção de 40,4% da população maranhense. Na época, o índice representava a maior soroprevalência do vírus se comparada a verificada em estudos disponíveis relativos a outros estados. Realizado por equipes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), da Secretaria de Estado da Saúde (SES/MA), da Secretaria Municipal da Saúde (SEMUS) e do Laboratório Central (LACEN/MA), o levantamento foi importante para investigar a expansão da doença, auxiliar profissionais da saúde na linha de frente no combate a Covid-19 e autoridades de saúde na tomada de decisões para contenção do agente infeccioso.

Um dos principais objetivos da investigação foi estimar a prevalência de anticorpos totais contra o SARS-CoV-2 no Maranhão e avaliar a adoção de medidas não farmacológicas para a contenção do vírus. O estudo mostrou que a prevalência de anticorpos contra vírus SARS-CoV-2 foi semelhante entre homens e mulheres, e também não variou entre as faixas de idade analisadas. Mas ficou claro que o impacto da pandemia foi maior sobre as classes menos privilegiadas. A prevalência foi maior em indivíduos com ensino médio completo (46,2%), seguido pelos indivíduos com menor escolaridade (ensino fundamental II completo: 40,9%). As prevalências foram maiores em domicílios com maior número de pessoas (acima de 2 moradores).

A prevalência de adesão às medidas não farmacológicas de proteção à exposição ao vírus foi investigada considerando a prática no início da pandemia e no último mês, na população geral e entre os indivíduos com resultado do teste positivo. Houve redução na prevalência de adesão às medidas de controle entre os dois momentos investigados. A maior redução foi no isolamento social (-15,0%). O uso de máscara teve redução de -5,9%. Apesar dessa redução, o uso de máscara se manteve como a medida mais utilizada no último mês (55,5%). O isolamento social foi a prática que apresentou a menor adesão no último mês (37,4%)

Entre os indivíduos com resultado de teste positivo, todas as prevalências das medidas não farmacológicas de prevenção à infecção pelo vírus foram mais baixas do que as estimadas para a população geral. Houve pouca diferença entre as prevalências, apontando para pequena mudança no comportamento após a infecção. Para o secretário estadual de saúde do Maranhão, Carlos Lula, o inquérito teve papel fundamental no acompanhamento da real situação. “O inquérito permitiu uma avaliação mais precisa do cenário pandêmico em nosso estado, por meio do percentual de prevalência do vírus na população. A partir daquele momento, as ações de saúde planejadas pelo Governo do Maranhão tiveram a segurança científica para retorno gradual das atividades comerciais, retomada das cirurgias eletivas e investimentos na ampliação de novos serviços não-Covid. É fundamental que as decisões acerca de políticas públicas sejam baseadas em evidências científicas e não em arquétipos construídos a partir de bases falsas”, explica.

No início da pandemia, somente o isolamento teve diferença estatisticamente significante como medida de prevenção, ou seja, os que ficaram em isolamento social tiveram menores taxas de infecção (36,4%) do que os que não ficaram (45%). No último mês, as prevalências foram menores entre as pessoas que aderiram a essas intervenções em relação às que não aderiram. A exceção foi em higienização das mãos, não se observando diferenças significantes.

No último mês, as prevalências de anticorpos contra o vírus SARS-CoV-2 entre os quatro tipos de intervenções foram próximas, variando de 34% para isolamento social a 36,2% para higienização das mãos. Os dados indicaram que essas medidas podem ser efetivas no controle da exposição ao SARS-CoV-2. A partir da prevalência pontual, pode-se atribuir um aumento de cerca de 23,3% de ser soropositivo entre os que não aderem ao isolamento social, 21,6% entre os que não aderem ao uso de máscaras, 18,5% à baixa higienização das mãos e 17,1% a não adesão ao distanciamento físico, comparado a pessoas que fizeram cada uma dessas intervenções individualmente.

Na investigação dos sintomas mais frequentemente apresentados, os mais prevalentes foram perda de olfato ou anosmia/hiposmia (49,5%), perda de paladar ou ageusia/disgeusia (47,7%), febre (45,6%), dor de cabeça (45,4%), seguidos de mialgia (43,6%) e fadiga (41,1%). A maior parte dos indivíduos apresentou mais de três sintomas (62,2%). Dentre as comorbidades investigadas durante o inquérito, as mais relatadas pelos indivíduos soropositivos foram hipertensão arterial (19,5%) e diabetes mellitus (7,8%).

Entre os indivíduos que tiveram teste positivo para o vírus, foi possível observar que 72,4% relataram não ter precisado procurar atendimento nos serviços de saúde e 8,6% relataram não ter conseguido atendimento, enquanto 1,9% informaram ter sido internado por mais de 24 horas. A partir desses dados pode-se supor que a maioria apresentou quadros clínicos leves, posto que menos de 30% relatou necessidade de procurar serviços de saúde.

Mas, mesmo que em números percentuais o quantitativo de pessoas que foram internadas tenha sido pequeno, em números absolutos é de grande magnitude, especialmente levando em conta o adoecimento de muitos indivíduos em curto espaço de tempo. No Maranhão, o Plano Estadual de Contingência do novo Coronavírus ampliou a oferta de leitos hospitalares e de serviços de urgência de modo a responder às necessidades da população na dinâmica da pandemia.

O representante da categoria farmacêutica Estado, conselheiro federal de Farmácia, Marcelo Rosa, considera que o estudo fez toda a diferença na qualidade da assistência prestada às pessoas e nas medidas adotadas para a contenção da doença. “Farmacêuticos, médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, dentistas e tantos outros profissionais da saúde estiveram na ponta apurando informações de gênero, contexto social, populacional e também sobre sintomas como fadiga, dor muscular, dor de cabeça, febre, alteração do paladar e olfato apresentados por indivíduos alcançados. Esta pesquisa foi uma maneira de manter o alerta de saúde e auxiliar na tomada de decisões com mais agilidade diante de um vírus tão infeccioso e que ainda vem causando muita dor no Brasil e no mundo”, declarou.

O estado do Maranhão é composto por 217 municípios e tem 7 milhões de habitantes. O cenário representado no documento representa 69 municípios de 19 regiões de saúde. O inquérito domiciliar de base populacional possibilitou a estratificação da amostragem em três estágios. No primeiro, os municípios do Estado foram agrupados em quatro estratos de acordo com o tamanho populacional. De forma sistemática, no segundo estágio, 34 domicílios foram sorteados em cada setor. Já no terceiro estágio, um indivíduo residente com 1 ano ou mais de idade foi sorteado por amostragem aleatória simples.

A coleta de dados foi realizada por profissionais devidamente treinados no manuseio de instrumentos, estratégias e métodos. No recolhimento das amostras também foram utilizados procedimentos laboratoriais para determinação qualitativa de anticorpos totais contra o SARS-CoV-2.

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