Farmacêutico desmente fake news sobre ação de vacina contra Covid-19 em crianças

Com o início da vacinação do público infantil no Brasil, após liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), surgiram informações falsas sobre o RNA mensageiro da vacina da Pfizer. Circula, principalmente, nas redes sociais e em grupos de aplicativos de bate-papo, a afirmação de que ao penetrar na célula de uma criança, o RNAm permanece lá por décadas, expressando a síntese da proteína Spike do coronavírus, o que causaria lesões imprevisíveis em diferentes órgãos. Mas, essa afirmação não tem nenhuma sustentação científica – nem teórica nem clínica -, como explica o farmacêutico-bioquímico e perito criminal Carlos Antônio Almeida de Oliveira, especialista em documentoscopia forense e em perícia criminal e responsável pelos laboratórios de química forense e de documentoscopia da Polícia Federal do Estado do Tocantins.

Carlos Antônio explica que essa desinformação surgiu por que a vacina da Pfizer que começou a ser aplicada em crianças, utiliza a tecnologia de RNA mensageiro incluído numa cápsula lipídica, ou seja, num envoltório de gordura – ou veículo de nano capsula de lipídio. “O RNA mensageiro é uma biomolécula que existe em todas as células de animais e que participa da transcrição da mensagem do código genético do DNA até a formação de proteínas. A síntese de proteína do corpo humano só acontece por que um pedaço do código genético do DNA é copiado na forma de RNA mensageiro, num fenômeno de transcrição gênica, no núcleo da célula. O RNAm sai do núcleo e ao chegar ao citoplasma da célula, permite que aquele código genético contido nele seja traduzido em proteína, num processo chamado tradução”.

O farmacêutico Carlos Antônio Almeida de Oliveira

Dessa forma, explica Carlos Antônio, formam-se as diversas proteínas que tem funções diferenciadas no corpo humano: funções estruturais, enzimáticas e outras. “Os cientistas descobriram que o coronavírus tem na sua cápsula externa, uma proteína chamada Spike ou proteína S. E ela é muito importante para que o vírus penetre na célula humana. Então, os pesquisadores descobriram qual é a sequência genética do vírus que codifica a produção dessa proteína Spike. A partir dessa descoberta, sintetizaram essa sequência na forma de um RNA mensageiro dentro de um envoltório lipídico, gorduroso, e isso é administrado no paciente”.

De acordo com o farmacêutico, a estratégia é que, ao injetar esse RNA mensageiro no músculo do paciente, ele penetre em algumas células e possa codificar a produção da proteína S na célula humana. Quando essa proteína S é produzida no organismo humano, o sistema imunológico daquela pessoa reconhece aquela proteína e ele estará imunizado. Dessa forma, caso ocorra de essa pessoa entrar em contato com o vírus, o sistema imunológico dela já estará preparado para reconhecer e formar defesas de anticorpos que irão se ligar à proteína Spike do vírus.

Carlos Antônio garante que não existe fundamento teórico nem clínico na afirmação de que o RNAm fica eternamente na célula humana, expressando a produção dessa proteína S em grande quantidade. “Primeiro, porque, não há nenhuma evidência de que a proteína S seja tóxica. Segundo, está comprovado, há décadas, que toda biomolécula de um organismo animal, inclusive o RNA, se degrada logo depois que é introduzida no organismo. O organismo humano tem processos metabólicos para degradar tudo, então o normal é o RNA ser produzido no núcleo da célula e ir para o citoplasma, fazer a sua função de codificar a produção da proteína – tradução – e depois ser degradado”.

Ele ressalta que há mais de duas décadas se sabe, pela literatura bioquímica, que o RNA mensageiro possui meia vida de cerca de três horas apenas. Isso significa que, depois desse tempo, a concentração dele na célula já se caiu pela metade. “Então, não tem cabimento nenhum, do ponto de vista teórico, dizer que essa molécula injetada permanecerá na célula humana por anos, nem dizer que ela é tóxica ao ser humano. Do ponto de vista clínico, essa FakeNews se torna completamente desvinculada da lógica, porque a vacina foi testada e não se mostrou, de forma alguma, nociva aos seres humanos”.

Carlos Antônio verificou que na bula da vacina está dito que ela é de tecnologia RNA mensageiro e no tópico dedicado ao mecanismo de ação dela, está dito que o RNA mensageiro dela fará sua função de tradução da proteína S e que essa função do RNA é transitória. “É importante ressaltar que o RNA mensageiro não se incorpora ao código genético da pessoa que recebe a vacina, nem há qualquer mutação de DNA da pessoa, que fica no núcleo das células e o ciclo do RNA é no citoplasma”.

Carlos Antônio Almeida de Oliveira é formado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP-MG), onde exerceu, juntamente com a graduação, as atividades de iniciação científica em biologia molecular de leveduras, de extensão, junto a comunidades atingidas por barragens e do movimento estudantil, tendo fundado a Empresa Júnior de Farmácia da UFOP e atuado como representante discente junto ao Conselho Universitário. Percorreu o Estado do Tocantins proferindo palestras sobre farmacologia da dependência química, exames periciais de drogas e aspectos do tráfico de psicotrópicos e foi conselheiro do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas, tendo sido homenageado pelo Ministério da Justiça com o diploma do “Mérito pela Vida”