Farmacêutica do Departamento de Microbiologia da UFMG fala sobre pesquisas com o novo coronavírus

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Em menos de dez meses após sua descoberta, o SARS-CoV 2, ou o novo coronavírus, já contaminou mais de 26 milhões de pessoas em todo o mundo. O agente causador de uma nova doença respiratória aguda grave, a Covid-19, teve início em Wuhan, China, e propagou-se para diversos países até que, em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou uma situação de pandemia.

Com as incertezas na história natural do novo coronavírus, incluindo fontes, mecanismos de transmissão e persistência do vírus no meio ambiente, o farmacêutico se tornou um dos profissionais da saúde mais importantes na busca pelo tratamento e até mesmo pela cura desta doença.

A farmacêutica Jordana Grazziela Alves Coelho dos Reis, PhD que atua no Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Departamento de Microbiologia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revela que tem sido um desafio enorme trabalhar com este vírus. Enquanto virologista e imunologista, ela compara os processos envolvidos na infecção pelo SARS-CoV 2 com a última grande pandemia mundial: a do HIV, que se alastrou sobre o mundo inteiro na década de 80. “A gente teve outras também, de influenza, associadas a outros vírus, mas eu falo do HIV pela importância, pelas mudanças de paradigmas e da maneira de se relacionar com o mundo que o HIV trouxe. Eu acho que o SARS-CoV 2 vai ter esse mesmo impacto, se não maior”.

O novo coronavírus, apesar de acometer um percentual pequeno da população, o faz de uma forma muito significativa. “Hoje nós temos 38 milhões de indivíduos infectados com HIV no mundo. Ele demorou um espaço de mais de 40 anos para poder acumular 38 milhões de infectados. E nós temos o SARS-CoV 2 que, em menos de dez meses, acumula 26 milhões de pessoas infectadas. E daí vemos o contraste e a agressividade, a alta transmissibilidade do SARS-CoV 2, até pelo modo de transmissão, que é a via aérea, e pelo contato com secreções que também é uma via mais fácil e viável para a disseminação de vírus”.

No contexto da pandemia de Covid-19, os sistemas de saúde enfrentam um rápido aumento da demanda. E, quando os sistemas de saúde estão sobrecarregados, tanto a mortalidade direta causada pelo surto, como a mortalidade indireta causada pelas doenças preveníveis e tratáveis, aumentam de forma significativa. Uma análise da epidemia de Ebola (2014-2015), por exemplo, sugere que o aumento do número de mortes causadas por sarampo, malária, HIV/AIDS e tuberculose, atribuível a falhas no sistema de saúde, superou as mortes causadas pelo Ebola (OPAS). “É realmente um impacto enorme em saúde pública. E eu acredito que todos os profissionais da saúde: farmacêuticos, enfermeiros, médicos, pesquisadores, microbiologista, imunologista, farmacologistas, epidemiologistas, todos nós estamos realmente nos adaptando a essa nova era”.

Pesquisas

No Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, a Dra. Jordana desenvolve duas grandes linhas de pesquisas. A primeira busca por biomarcadores de acompanhamento de pacientes covid-19 e outra identifica drogas antivirais que podem contribuir para o tratamento da doença.

A docente diz que o estudo para entender a resposta antiviral e inflamatória de pacientes com Covid-19, a resposta imunológica protetora que esses indivíduos desenvolvem ou não, pode ser usado, futuramente, como biomarcadores de progressão clínica, com desfecho favorável ou desfavorável. “A gente tenta entender o que um indivíduo que tem um desfecho bom, ou seja, a alta do hospital, teve que o paciente que foi a óbito não teve. Isso é importante para eu poder fazer intervenções mais preliminares e anteriores para tentar conter os casos mais graves, que podem ser preditos como ruins”. Essa resposta pode ser usada como preditor de morbidade, gravidade ou de cura.

A segunda linha de pesquisa é no sentido de como o profissional pode fazer o reposicionamento de drogas que já estão disponíveis no mercado para tratar a infecção. “Nós buscamos drogas que estejam já em um estágio mais avançado, bem como drogas que ainda estão no seu início, que precisam ser avaliadas desde sua toxicidade até a sua análise de biodisponibilidade até se prepararem a ser fármacos para tratamento de doenças de importância”.

Ela explica que existem protótipos a fármacos e essa pesquisa é necessária para se propor o reposicionamento de drogas. “Nós estamos trabalhando dentro dessa vertente e preparando toda a instrumentação, laboratórios, linhagem viral, cultivos celulares, capacitando, trabalhando na formação de recursos humanos e de alunos de mestrado e doutorado aqui da Universidade para que eles possam trabalhar e fazer o teste efetivo de drogas com potencial antiviral para SARS-CoV 2”.

A pesquisadora destaca que, por não existir tratamento efetivo para a Covid-19, o papel do farmacêutico no manejo clínico dos pacientes é inquestionável. “Nós temos estratégias e abordagens que estão sendo utilizadas mas, muitas vezes, para o uso emergencial e, muitas vezes, sem uma colaboração científica que nos garante que aquela terapia é efetiva para pacientes infectados com esse vírus”.

Também por essa razão, o valor da formação do farmacêutico e a contribuição que ele pode ter dentro de um contexto da Covid-19 são essenciais. “A gente precisa de pessoas formadas e com todo o arcabouço em farmacologia, em farmacocinética e farmacodinâmica de drogas para que eles nos auxiliem a desvendar esses mecanismos que precisam de ser vistos para o desenvolvimento de drogas específicas para SARS-CoV 2”.

A professora Jordana dos Reis diz que está à espera de farmacêuticos habilitados que possam auxiliar nas pesquisas científicas, no desenvolvimento racional de drogas e, também, para encontrar biomarcadores laboratoriais de acompanhamento clínico do paciente com covid-19. “É importantíssimo que esses profissionais venham até nós, venham para a universidade, venham realizar o seu mestrado, o seu doutorado ou seu pós-doutorado aqui conosco, trabalhando nas linhas de pesquisa para o enfrentamento da Covid-19.”

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